Nesta entrevista, Raphaella
Gomes, CEO da New Gaia, analisa como a integração entre agronegócio, bioenergia
e capital pode transformar o potencial brasileiro em liderança global e alerta
que essa janela de oportunidade exige ação, investimentos e segurança
regulatória.
1. O Brasil já resolveu algo
que o mundo ainda tenta entender. O que exatamente o país fez certo quando
falamos de energia e bioenergia?
O Brasil construiu,
ao longo de décadas, uma vantagem competitiva estrutural difícil de replicar: a
integração entre energia, agricultura e escala industrial. Enquanto o mundo
debate como descarbonizar o transporte ou a indústria pesada, nós já temos resposta
prática: etanol, biomassa, biogás, bioeletricidade. Isso não foi acidente. Foi
política industrial de longo prazo.
Na década de 1970, diante do choque do
petróleo, o país decidiu investir maciçamente no Proálcool. Décadas depois,
somos um dos maiores produtores e exportadores de etanol do mundo, com
tecnologia de ponta desenvolvida internamente e uma cadeia produtiva integrada
que o mundo inteiro tenta agora replicar.
Os dados confirmam: o
Brasil produz mais de 36 bilhões de litros de etanol por ano e possui uma
matriz elétrica com mais de 80% de fontes renováveis, uma das mais limpas do
mundo.
O que o país fez
certo foi não separar energia de agricultura. A cana-de-açúcar é o melhor
exemplo disso: a mesma planta que produz açúcar gera etanol de primeira e
segunda geração, bioeletricidade e, no futuro próximo, SAF e combustível
marítimo. Isso é uma vantagem que levou 50 anos para construir, e que não se
copia da noite para o dia.
2. Hoje se fala muito em
descarbonização, mas ainda há pouca clareza sobre sua aplicação prática. Como
esse conceito se traduz no dia a dia do setor produtivo?
Para mim descarbonização não é um
custo que o setor produtivo precisa absorver por pressão regulatória ou
reputacional. É, antes de tudo, uma estratégia de segurança energética.
O Brasil importa entre 85% e 90% de
todos os fertilizantes que consome. Seguimos importando diesel, GNL, derivados
de petróleo. Cada vez que há uma disrupção geopolítica — um conflito no Oriente
Médio, um ataque a infraestrutura no Catar — o custo dessa dependência fica
claro na conta das empresas brasileiras. A descarbonização, quando feita de
forma adequada, é a resposta estrutural a essa vulnerabilidade. Produzir
biometano a partir de resíduos, substituir diesel por combustível renovável
produzido localmente, gerar bioeletricidade a partir de biomassa, tudo isso
reduz exposição a choques externos e aumenta previsibilidade de custo.
Na prática, descarbonizar um setor
produtivo significa substituir insumos fósseis por alternativas de baixo
carbono, medir essa substituição com rigor — Escopos 1, 2 e 3, análise de ciclo
de vida — e transformar essa performance em diferencial competitivo real:
acesso a mercados, custo de capital menor e posição regulatória mais forte.
O índice de política de incerteza
econômica global em 2025 bateu 628 pontos — mais alto do que durante a COVID.
Isso significa que as empresas estão operando num ambiente de altíssima
instabilidade. E nesse contexto, quem tem uma tese de descarbonização sólida,
com dados reais e projetos bankable, ganha resiliência.
Para o setor sucroenergético
especificamente, a aplicação é imediata: certificação de sustentabilidade
internacionalmente reconhecida, inventário de emissões com metodologia GHG
Protocol, e portfólio diversificado, as empresas que souberem atuar neste
cenário vão capturar vantagens competitivas reais, as demais vão depender
apenas do preço da commodity.
3. A transição energética
global está acontecendo de forma estruturada ou ainda vemos movimentos
fragmentados entre países e setores?
Há movimentos simultâneos e contraditórios: a
China hoje gera 40% mais eletricidade do que os EUA e a União Europeia
combinados (10.069 TWh por ano) e lidera
o registro de patentes em energia limpa, com mais de 5.000 por ano, superando
Europa e EUA. Ao mesmo tempo, as emissões chinesas permanecem em torno de 12
GtCO₂, praticamente estabilizadas desde 2024, mas ainda muito relevantes.
Na outra ponta, a Europa continua sendo a
referência em capital sustentável: 22% dos ativos de fundos de ações são
sustentáveis na Europa, contra 1,3% nos EUA. E o mercado voluntário de carbono
está crescendo — a demanda por créditos de captura de gás e superpoluentes
subiu 33% entre 2024 e 2025. Floresta e combustíveis alternativos lideram as
retiradas de crédito.
Mas há também recuos preocupantes. A Net-Zero Banking
Alliance, coalizão apoiada pela ONU que reunia os maiores bancos do mundo,
encerrou formalmente as operações em outubro de 2025 — após a saída em cascata
de bancos americanos, canadenses e europeus sob pressão política e ameaças de
processos antitruste nos Estados Unidos, a reversão
de incentivos nos Estados Unidos com o One Big Beautiful Bill, saída do país do
Acordo de Paris e a fragmentação de políticas climáticas entre diferentes
blocos geopolíticos - tudo isso gera incerteza para quem investe.
Para o Brasil, essa fragmentação é uma
oportunidade, não um obstáculo. Somos o único país com vantagem competitiva
simultânea em múltiplos vetores: biocombustíveis, biomassa, matriz elétrica
renovável, capacidade agrícola e tecnologia nacional. Num mundo em que a
transição energética também é uma disputa geopolítica, o Brasil pode ser a
resposta, desde que construa posicionamento proativo. Posicionamento é o que
converte potencial em contrato.
4. O biometano É hoje uma
realidade consolidada ou ainda enfrenta desafios estruturais para expansão?
É uma realidade que está se consolidando, mas
que ainda não chegou à escala que deveria. Tenho orgulho de ter estruturado o
primeiro contrato livre de biometano no novo mercado de gás brasileiro - foi um
marco. Desde 2018, quando as primeiras plantas entraram em operação, o
crescimento foi consistente. A regulação acompanhou bem: a equiparação do
biometano ao gás natural pela ANP, a Lei do Combustível do Futuro, e mais
recentemente o CGOB - Certificado de Garantia de Origem do Biometano - são
avanços legislativos importantes que dão credibilidade ao mercado.
Mas ainda estamos produzindo algo em torno de
3 milhões de metros cúbicos por dia quando temos potencial para mais de 100
milhões.
Os desafios estruturais são conhecidos: custo de conexão
à rede de gasodutos, instabilidade regulatória histórica no setor de gás, e a
questão da precificação do atributo ambiental. O marco regulatório do
Combustível do Futuro e o CGOB são passos importantes, mas a credibilidade do
certificado ainda precisa ser construída internacionalmente.
Um dado relevante para essa discussão é que o mundo está
experimentando uma demanda explosiva por energia firme e despachável. Com 102
GW de pedidos globais de turbinas a gás contra uma capacidade de produção de
apenas 60 GW por ano, há escassez real de geração base. O biometano, como fonte
despachável e renovável, tem um papel único a jogar nesse contexto —
especialmente numa matriz como a brasileira, onde a complementaridade com hidro
e solar é natural.
5. Entre SAF, e-fuels, CO2
biogênico e biocombustíveis avançados, onde estão hoje as maiores oportunidades
reais de negócio?
SAF via rota Alcohol to Jet é a oportunidade
mais concreta e imediata para o Brasil. E-fuels são promessa de longo prazo —
os dados europeus de hidrogênio verde deixam isso claro: a Europa tinha 308 MW
de capacidade de eletrólise instalada em 2024, contra uma necessidade de 100 GW
para atingir a meta de 10 milhões de toneladas anuais de hidrogênio verde em
2030. A distância é enorme e não é aposta para o curto prazo ou médio prazo.
SAF é diferente. Há mandatos concretos e a
demanda está formada e crescendo. E a rota ATJ (Alcohol to Jet) usa etanol
disponível, infraestrutura existente e tecnologia validada. O gargalo é a
construção das unidades de conversão, que leva de 5 a 10 anos. Por isso
precisamos começar logo.
O CO₂ biogênico é um ativo subestimado. O
biogás tem composição de 50% CH₄ e 50% CO₂ biogênico. Na rota Power to Liquid,
esse CO₂ pode ser usado para produzir combustíveis sintéticos. No curto prazo,
esse CO₂ pode também ser capturado e comercializado via mercado de créditos de
carbono — uma fonte de receita adicional que ainda não está adequadamente
precificada na maioria dos projetos brasileiros.
A ordem de prioridade que eu defendo é:
etanol como substituto de combustível marítimo e SAF ATJ no médio prazo (5-10
anos), biometano no curto-médio prazo, captura e uso de CO₂ biogênico como
receita complementar e e-fuels como horizonte de longo prazo.
6. O Brasil avançou com o marco
regulatório do combustível sustentável de aviação (SAF). Como essa
regulamentação pode impactar a competitividade do país e a geração de novos
negócios?
O mandato brasileiro de SAF - o Pro-BioQAV,
que entra em vigor em 2027 com 1% de mistura - e um sinal de mercado
importante. Não é tão ambicioso quando comparado com os mandatos europeus, mas
é um começo e cria a estrutura de demanda interna que permite projetos de
produção no Brasil.
Os mandatos globais de SAF estão criando uma
demanda estrutural e crescente. A Europa já tem mandatos em vigor. Japão e
Vietnã também estão avançando com obrigações de mistura. Os EUA, com o atual
cenário político, devem focar no produtor doméstico.
O CORSIA, adotado pela Organização da Aviação
Civil Internacional em 2016 e aplicável aos 193 Estados-membros e constitui o
principal instrumento de governança climática para a aviação internacional e um
driver regulatório para a demanda de SAF.
Isso cria um mercado de exportação real para
o SAF brasileiro, mas capturar esse mercado exige a construção de
rastreabilidade, certificação e assinatura de contratos de venda.
Por exemplo, o etanol de cana-de-açúcar
brasileiro é a matéria-prima de melhor desempenho climático entre os aprovados
pela Organização da Aviação Civil Internacional para a rota ATJ. Os valores
padrão do CORSIA situam o ciclo de vida do SAF-ATJ produzido a partir de
cana-de-açúcar brasileira em 32,8 gCO₂e/MJ — menos de um terço do valor
equivalente do etanol de milho norte-americano, que registra 90,8 gCO₂e/MJ,
acima da própria linha de base do querosene fóssil. O etanol de milho produzido no
Brasil, contudo, apresenta perfil de emissões substancialmente distinto do
norte-americano, e esse diferencial foi reconhecido formalmente pela ICAO em
junho de 2025.
A minha estimativa, com base na capacidade
agroindustrial do Brasil e nos mandatos que estão se consolidando, é que
podemos chegar a produzir 2 bilhões de litros de SAF por ano até 2035, se
tratarmos isso como política industrial e fizermos os investimentos
necessários.
7. O agronegócio brasileiro
está preparado para atender essa nova demanda por combustíveis sustentáveis?
Em termos de capacidade produtiva e know-how,
sim. O agronegócio brasileiro tem uma versatilidade impressionante: por exemplo
saltamos de praticamente zero para 35% da produção de etanol a partir de milho
em menos de 10 anos.
Temos 40 milhões de hectares de área
degradada que podem ser recuperados para produção de macaúba para SAF, como
está fazendo a Acelen. Temos a cana, que é uma das rotas mais eficientes
conhecida de geração de energia renovável. Temos resíduos agrícolas em larga
escala. Temos potencial enorme de produção de biometano e bioenergia...
Acho que precisamos ver esses ativos não
apenas como commodities de alimento, mas como matéria-prima de energia limpa de
alto valor agregado.
E penso que falta coordenação internacional
para que o Brasil possa efetivamente capturar todo o valor desta cadeia
integrada agro energética (não só em relação aos atributos ambientais e
descarbonização, mas também levar em conta a eficiência, circularidade etc.).
8. Considerando sua atuação
atual com estratégia e investimentos, como o capital internacional enxerga o
Brasil na agenda de baixo carbono?
Com
interesse crescente, mas com ceticismo estrutural que precisa ser gerenciado
com dados, não com retórica.
O capital
internacional enxerga o Brasil como uma das poucas geografias com vantagem
competitiva estrutural na transição energética: matriz elétrica limpa, biomassa
abundante, capacidade agrícola única e território para geração renovável em
escala. Isso é reconhecido. O que o capital ainda hesita é na conversão de
potencial em retorno verificável.
Os fundos
sustentáveis na Europa representam 22% dos ativos totais de renda variável — um
número expressivo. Na América Latina, esse número é de apenas 1,5%. Isso não
significa falta de interesse no Brasil, significa que ainda não construímos a
ponte entre o apetite do capital sustentável europeu e os projetos brasileiros
de baixo carbono.
Essa ponte
tem três componentes: segurança jurídica, rastreabilidade de impacto e liquidez
do ativo. Quando estruturamos qualquer projeto de baixo carbono, uma das
principais perguntas dos investidores é: como medir, certificar e precificar o
atributo ambiental? E como garantir o fluxo de receita no longo prazo? Isso se
faz com regulação consistente, certificação com padrão internacional e
contratos de longo prazo.
9. Quais são hoje os principais
entraves para a atracão de investimentos em energia limpa no país?
São quatro entraves principais,
em ordem de relevância prática: instabilidade regulatória, infraestrutura,
modelagem de projetos e narrativa de investimento.
A instabilidade regulatória é o
mais crítico. O investidor de longo prazo precisa de previsibilidade. Se as
regras do mercado de gás, do RenovaBio, do mercado de carbono ou dos mandatos
de SAF mudarem a cada ciclo de governo, o custo de capital sobe e os projetos
não fecham. O Índice Global de Incerteza de Política Econômica atingiu 628
pontos em 2025, o maior da história, superior ao pico da COVID. O Brasil não
pode controlar o ambiente global, mas pode e deve controlar seu próprio
ambiente regulatório.
Infraestrutura é o segundo
entrave. E estamos falando de tudo: gasodutos, conexões de rede elétrica,
portos, ferrovias. Importamos 85% do fertilizante que consumimos por falta de
produção doméstica. Não temos gasodutos suficientes para escoar biometano. Nossas
conexões de rede elétrica têm gargalos. Para desbloquear a transição energética
no Brasil, infraestrutura deveria ser a prioridade número um do governo.
O terceiro entrave é a modelagem.
Muitos projetos chegam ao mercado com premissas frágeis de CAPEX/OPEX, sem
análise de sensibilidade robusta, sem o atributo ambiental precificado
corretamente.
O quarto entrave é a narrativa. O
Brasil ainda não conta sua história de transição energética para o capital
internacional de forma sistemática. Há casos de sucesso reais: etanol,
bioeletricidade, biometano. Mas esses casos precisam estar documentados, certificados
e acessíveis para o investidor global que não conhece os detalhes do nosso
sistema.
10. Nos últimos tempos, vimos
movimentos relevantes envolvendo grandes empresas do setor. Na sua visão, isso
reflete um momento de ajuste ou uma transformação mais profunda no modelo da
bioenergia?
É transformação. Ajuste seria se o modelo de
negócio continuasse o mesmo com pequenas correções de rota. O que está
acontecendo é diferente: o modelo está sendo reinventado.
As grandes empresas do setor estão
descobrindo que a bioenergia não é mais uma indústria de commodity singular. É
uma plataforma de múltiplos produtos e múltiplas receitas: açúcar, etanol 1G,
bioeletricidade, biometano, SAF, biofertilizante, créditos de carbono. Cada uma
dessas receitas tem seu perfil de risco, seu ciclo de mercado e sua base de
clientes. Gerenciar esse portfólio exige uma competência estratégica que é
fundamentalmente diferente de operar uma usina tradicional.
Vemos uma dinâmica análoga no setor
automotivo global: a Tesla, que foi o símbolo da disrupção, viu suas vendas
anuais caírem mais de 140 mil unidades em 2025. Ao mesmo tempo, a BYD vendeu
4,6 milhões de veículos elétricos no mesmo ano, com 15 outras montadoras
chinesas produzindo mais de 250 mil EVs cada. Liderança inaugural não garante
liderança permanente.
Além disso, o ambiente de negócios global
enfrenta níveis de complexidade e transformação sem precedentes, uma crise
histórica de liquidez (que aumenta a disputa pelo capital) e a entrada de novas
tecnologias disruptivas (como inteligência artificial).
Tudo isso exige das empresas novas
competências, flexibilidade para ajuste de estratégia sem perder a visão de
longo prazo e muita disciplina na alocação de capital.
Para o setor sucroenergético brasileiro, não
é diferente: temos a liderança fundacional. Mas liderança fundacional precisa
ser constantemente renovada com investimento, inovação e visão de longo prazo.
Os movimentos que estamos vendo no setor são o início dessa renovação —
dolorosa, inevitável e necessária.
11. O Brasil corre o risco de
perder protagonismo ou tem condições reais de liderar a transição energética
global?
Tem
condições reais de liderar. E corre risco real de perder protagonismo. As duas
coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, e o que vai determinar o resultado
é o que fizermos nos próximos cinco anos.
A transição
energética é global e está acelerada. Renováveis já superam carvão na geração
elétrica mundial. Eletricidade é a maior fonte de energia útil do planeta. As
emissões relacionadas a mudança no uso da terra estão nos menores níveis em 60
anos — 4,1 GtCO₂, abaixo do pico histórico de 8 Gt. O mundo está se movendo,
com ou sem o Brasil.
O que o
Brasil tem que nenhum outro país tem na mesma combinação: uma matriz elétrica
com mais de 80% de renováveis, biomassa em escala continental, tecnologia
agrícola de ponta, capacidade de produção de etanol e biometano, e um mercado
interno grande o suficiente para desenvolver soluções antes de exportá-las.
Somos o único país onde energia, agricultura e escala convergem na dimensão
necessária para construir soluções climáticas replicáveis.
O risco de
perder protagonismo é real e vem de dentro: da falta de uma política industrial
integrada de transição energética, da instabilidade regulatória, da
infraestrutura insuficiente e da tentação de tratar cada agenda — etanol,
biometano, SAF, hidrogênio verde, solar, eólica — como compartimentos estanques
em disputa por atenção política. O mercado é grande o suficiente para todas
essas soluções. A questão é ter a coragem estratégica de tratar a transição
energética como o maior projeto de desenvolvimento do país, porque é exatamente
isso que ela é.
12. Onde estarão as maiores
oportunidades para o setor de bioenergia nos próximos 5 a 10 anos?
Em ordem de maturidade e escala:
biometano integrado com biofertilizante, substituição de frota pesada com
biocombustíveis, combustível marítimo, SAF e captura e uso de CO₂ biogênico.
Biometano tem oportunidade
imediata no mercado de gás industrial, especialmente como substituto do diesel
na frota pesada e no setor industrial. O diferencial do biofertilizante como
coproduto é um fator competitivo subestimado: reduz a dependência de fertilizante
importado e agrega receita ao projeto. A demanda por energia firme e
despachável está crescendo globalmente, e o biometano é exatamente isso.
A alimentação da frota pesada com
biocombustíveis é uma oportunidade que ainda não está no centro das conversas,
mas deveria estar. Caminhões pesados, ferrovias, máquinas agrícolas, esse
segmento não vai ser eletrificado por bateria no curto prazo. Biometano, etanol
avançado e HVO são as soluções disponíveis agora, rentáveis e escaláveis.
E finalmente: o CO₂ biogênico
como ativo é uma fronteira ainda pouco explorada. O Brasil produz CO₂ biogênico
em escala industrial — das usinas de etanol, dos digestores de biometano.
Capturar, certificar e comercializar esse CO₂ — seja para uso industrial, seja
para crédito de remoção permanente, é uma receita adicional que pode mudar a
economia de vários projetos que hoje ficam no papel.
13. Na sua avaliação, qual é o
principal erro que o Brasil ainda comete na agenda de energia e clima?
Tratar a transição energética
como agenda ambiental, e não como política industrial.
Esse é o erro central, e ele
contamina tudo: o financiamento, a regulação, a comunicação externa e o
alinhamento entre governo, setor privado e sociedade. Quando tratamos a
transição como pauta ambiental, ela vira alvo de polarização política, depende
do ciclo de governo e compete com a agenda econômica de curto prazo. Como
política industrial, ela vira estratégia de Estado, independente de quem
governa, porque é sobre competitividade econômica, geração de empregos e
soberania energética.
As menções a sustentabilidade e
clima na carta anual do CEO da BlackRock — o maior gestor de ativos do mundo —
atingiram pico em 2020 e caíram vertiginosamente desde então. O ESG como
retórica está em retrocesso. O que fica é o ESG como realidade econômica: o
custo do carbono, os mandatos regulatórios, o acesso a mercados que exigem
rastreabilidade de emissões.
O Brasil tem tudo para ganhar
nesse novo ambiente, onde o que vale é performance verificada, não promessa.
Mas para isso, a transição energética precisa sair da pasta do Ministério do
Meio Ambiente e virar uma política de Estado integrada, com uma visão de 20
anos e metas verificáveis.
Potencial, como eu sempre digo,
não basta. O futuro não se prevê, ele se constrói. E o Brasil tem hoje, neste
momento, a janela para ser não a promessa da transição energética global, mas a
resposta.
SOBRE Raphaella Gomes – New Gaia
Reconhecida
pela Forbes como uma das 100 Mulheres Mais Poderosas do Agronegócio e Energia,
Raphaella Gomes é fundadora da New Gaia Strategies & Investments e possui
mais de 20 anos de experiência nos setores de energia, combustíveis e
agricultura, tendo atuado em cargos de liderança na Shell, Raízen e Votorantim.
A New Gaia é uma plataforma de consultoria e investimentos que apoia empresas
de mercados emergentes e investidores na construção de soluções climáticas e
negócios de baixo carbono, atuando na transição energética com foco na
interseção entre energia e agronegócio.
https://www.linkedin.com/in/raphaella-gomes/


