Bares se adaptam em cenário de recorde de turistas estrangeiros no Brasil

 


Recorde de visitantes estrangeiros amplia circulação de recursos no país e exige ajustes em atendimento, comunicação e posicionamento dos estabelecimentos

O recorde de turistas internacionais no Brasil em 2025 trouxe reflexos diretos para o setor de alimentação fora do lar. Com mais de 9 milhões de visitantes estrangeiros no país e US$ 6,6 bilhões injetados na economia entre janeiro e outubro, segundo dados do Ministério do Turismo, parte relevante desse fluxo financeiro passa por restaurantes, bares, cafeterias e similares, que ocupam posição central na experiência de viagem.

O aumento da presença estrangeira ocorre em um momento de recuperação gradual do setor. Levantamento da Abrasel indica que 47% das empresas operaram com lucro em dezembro, enquanto 16% registraram prejuízo e 36% apontaram estabilidade. O dado revela avanço no desempenho, mas também sinaliza que parcela dos estabelecimentos ainda busca consolidar margens e fortalecer resultados.

Nesse contexto, a demanda internacional surge como oportunidade adicional de crescimento, mas exige ajustes operacionais e estratégicos.

Atendimento e comunicação entram no centro da estratégia

Em Recife, o restaurante CA JA revisou processos de atendimento para receber melhor o público estrangeiro. O sócio Yuri Machado afirma que a principal transformação ocorreu na forma de comunicação com o cliente. “Ao longo dos últimos anos, ajustamos o atendimento para receber melhor os turistas estrangeiros, com foco na explicação dos pratos, ingredientes regionais e na forma de comunicação”, relata.

A alta rotatividade típica do setor impõe desafios na formação de equipes com domínio de idiomas. Como resposta, o restaurante adotou cardápio digital multilíngue e reforçou a explicação direta à mesa. Segundo Machado, o fluxo de turistas aumentou após a pandemia, sobretudo nos períodos de maior movimentação na cidade. Ele destaca que o visitante estrangeiro demonstra interesse pela cultura local e costuma recomendar a experiência a outros viajantes.

No sul de Minas Gerais, em Pouso Alegre, a presença de multinacionais impulsiona a chegada de profissionais estrangeiros à região. No restaurante onde trabalha a garçonete Rafaela Martins, não houve treinamento específico para esse público, mas o domínio do inglês tornou-se diferencial. “O atendimento em inglês faz diferença, pois conseguimos nos comunicar com quase todos os clientes estrangeiros. O cardápio em inglês facilita muito”, afirma.

A estratégia adotada foi direcionar o atendimento aos turistas para colaboradores que dominam o idioma, medida que trouxe mais segurança na comunicação e elevou a satisfação do público.

Integração com o trade e posicionamento como parte da experiência

Em Florianópolis, o Freguesia Coffee Bar estruturou a operação com foco no turismo internacional. O estabelecimento mantém recepcionista bilíngue e parcerias com o trade turístico local. Segundo a proprietária Carla Costa, o perfil do visitante varia conforme a temporada. “Na baixa temporada recebemos muitos chilenos e, na alta, predominam os europeus, reflexo do aumento dos voos internacionais no aeroporto da cidade”, afirma.

Para ela, a preparação envolve mais do que tradução de cardápio. “É preciso estar pronto para explicar a gastronomia, a cultura e os atrativos da cidade”, diz. Ao assumir esse papel, o estabelecimento se posiciona como parte da experiência do destino e amplia o potencial de fidelização e recomendação.

Tendência estrutural para o setor

O crescimento do turismo internacional aponta para mudança estrutural no setor de alimentação fora do lar. Medidas como cardápios multilíngues, qualificação básica em idiomas e integração com o trade tendem a integrar de forma permanente a rotina operacional dos estabelecimentos.

Em um cenário em que parte das empresas ainda opera com margens pressionadas, conforme indica o levantamento da Abrasel, o fluxo adicional de turistas representa oportunidade de elevação de tíquete médio, fortalecimento de marca e diversificação de público. A consolidação desse movimento dependerá da capacidade de adaptação dos negócios e da manutenção do ritmo de crescimento do turismo no país.


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