Opinião: O agronegócio brasileiro está pronto para ter sua primeira startup de US$ 1 bilhão?

Vivemos tempos favoráveis para o surgimento de "unicórnios" – startups de capital fechado avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. Consumidores cada vez mais exigentes, ansiosos por novas facilidades e conveniências, acesso a infraestrutura e tecnologias de baixo custo e grande fluxo de capital de risco vêm provocando uma avalanche desses animais mitológicos ao redor do mundo


por Isadora Faria

Ainda que a preferência dos capitalistas de risco esteja clara – o maior fluxo de capital levantado pelas startups nos últimos anos foi direcionado às fintechs –, outros setores vêm ganhando relevância e a atenção dos fundos de "venture capital", como saúde, mobilidade, varejo e mercado de consumo e entretenimento e mídia.

Com as agtechs não foi diferente. As startups focadas em soluções para o agronegócio levantaram US$ 30 bilhões em 2020, segundo estudo da AgFunder, venture capital focado no setor. Com o fluxo de capital de risco aumentando e com o avanço da tecnologia no campo, como o 5G, chegou a hora de surgir o primeiro unicórnio do setor?

Nos últimos cinco anos, vimos o número de unicórnios crescer impressionantes 350%, passando de 165, inicialmente, para 743 no fim do primeiro semestre de 2021. A pesquisa "Living in a world of unicorns", da PwC, mostra que, nesse período, 869 unicórnios surgiram em 41 países. Esse fenômeno global foi impulsionado, principalmente, pela abundância de capital de risco disponível e pela crescente disposição dos empreendedores de resolver dores existentes em mercados tradicionais ou até mesmo de criar novas demandas para dores não reconhecidas pelos clientes.

Ainda que americanos e chineses disputem a liderança nessa corrida (80% das startups têm sede nos Estados Unidos e na China), o fenômeno da multiplicação dos unicórnios é uma realidade ao redor do mundo: os 20% restantes estão distribuídos em 39 países. Dos 869 unicórnios criados, 25 são brasileiros (2,9% do total). Mas se desconsiderarmos os unicórnios americanos e chineses, o percentual salta para 14,4%, mostrando que o ecossistema de inovação no Brasil acompanhou a tendência global e ganhou a atenção dos fundos de venture capital.

Mesmo com a pandemia de covid-19, que rompeu cadeias de produção e causou grande impacto na economia global, o agronegócio mostrou incrível resiliência e capacidade de adaptação. Pessoas e negócios se viram obrigados a obedecer a medidas restritivas de circulação, mas o campo não parou. O segmento representou 26,6% do PIB brasileiro em 2020, o que equivale a aproximadamente R$ 2 trilhões. E, de acordo com a pesquisa "Projeções do Agronegócio", do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a produção agrícola brasileira deve crescer até 2030.

Mas engana-se quem acredita que tudo são flores – ou soja. Mesmo com o cenário econômico favorável para o agronegócio brasileiro, o setor deve enfrentar grandes desafios nos próximos anos. Com o crescimento da população mundial, o aumento da renda em países em desenvolvimento, como China e Índia, e as mudanças climáticas, a demanda por alimentos continuará a ser constantemente pressionada. A cadeia de valor precisará encontrar novas formas de aumentar a produtividade, garantir a segurança alimentar e nutricional e promover a agricultura sustentável.

Com o avanço da tecnologia no campo, muitos produtores brasileiros buscaram soluções inovadoras desenvolvidas em países que são referências no setor. Foi fácil perceber, contudo, que esse não seria o caminho, uma vez que as dores do produto brasileiro talvez nunca sejam sentidas em outros territórios.

Compatível com as dimensões continentais do nosso país, a lista de dificuldades é longa: complexidade logística, falta ou precariedade na infraestrutura, grandes variações climáticas e de paisagem ou fauna regional, e instabilidades cambial, econômica e política são apenas alguns dos problemas encontrados no campo.

Foi nesse cenário fértil que as agtechs brasileiras viram uma avenida para explorar a solução de problemas com recursos tropicalizados. Com a digitalização de serviços essenciais para os produtores, como acesso facilitado a contas digitais e o aumento da conectividade e da infraestrutura tecnológica, as startups do setor estão encontrando modelos escaláveis que as colocam no caminho para se tornarem unicórnios.

Ainda que nenhum animal mitológico tenha sido visto no setor, os "soonicorns" – termo em inglês que une as palavras "logo" (soon) e "unicórnios" (unicorns) para designar startups que se aproximam do valuation de US$ 1 bilhão –, começam a surgir no horizonte. Explorando tendências de "plataformização de serviços", principalmente de serviços financeiros, as agtechs começam a disputar um lugar no clube das startups mais valiosas do mundo.


*Isadora Faria é gerente sênior de Novos Negócios e Inovação da PwC Brasil.

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